Um cigarro chamava meu nome, um sussurro
amigo prometendo aliviar aquela semana que durara um ano.
Segurando o maço na mão, permiti que meus
dedos corressem pelo plástico que o envolvia, puxando levemente o lacre.
Amassando a embalagem, abri a caixinha de papel, deslizando a ponta do dedo
sobre cada cigarro, puxando um melancolicamente. Passei a fitar a rua,
encostando o cigarro aos lábios e segurando-o entre eles, buscando em meus
bolsos por um isqueiro.
- Você não vai fumar isso, vai? - uma voz
surgiu do velho que estava ao meu lado, sentado no banco em seu paletó bege, as
mãos ossudas envoltas em um cabo de guarda-chuva, embora o dia estivesse sem
nuvens. Uma barba rala seguia o contorno de sua mandíbula ainda forte, se
encontrando com as costeletas cuidadosamente aparadas, para dar em cabelos
grisalhos e finos. Seus olhos estavam escondidos por trás de óculos escuros, a
boca era uma linha firme.
Não me dei o trabalho de responder, meus
dedos haviam se fechado em torno do pequeno retângulo de metal e já o puxava à
superfície. E também, eu não queria que isso iniciasse uma conversa em que ele
ficasse falando dos netos ou me enchesse com o vazio que ficara de suas
memórias.
- Filho, você não vai fumar isso. Cigarros
são para dias tristes na cama, poetas, moribundos e suicidas. Você está aqui
fora. Não é poeta, pois se fosse, estaria no bar. - ele tomou uma pausa para
recuperar fôlego - Também não é moribundo. Esse banco é mais moribundo que
você. E, muito menos, é suicida.
Suspirei. Realmente, preferiria que ele
tivesse tirado a carteira e me mostrado foto dos seus netos, ou me envolvido em
um momento de nostalgia privada, compartilhando cada acontecimento por trás de
cada cicatriz que as rugas de seu rosto escondiam.
- Talvez eu seja um suicida. Talvez eu
esteja a caminho de um quarto de hotel agora mesmo para pular do último andar,
e eu só tenha parado para um cigarro pois eles cobram muito caro para
alugar um cinzeiro.
Uma risada seca veio de meu lado.
- Não aja como se a vida o tivesse tratado
mal, rapaz.
Virei-me para ele. Tentei ao máximo não
demonstrar expressão, mas acho que meu rosto me traiu, transparecendo a
confusão misturada com o clássico "Mas que porra você sabe da minha
vida?".
- Você não viu seus amigos morrerem. - foi
a vez do velho suspirar. - Um a um, você não perdeu tudo o que amava, tudo o
que lhe era querido. - sua voz foi crescendo, uma raiva reprimida cuspia as
palavras. - Você não perdeu anos de sua vida em uma cama imunda de hospital,
mergulhado em sua própria urina. Você não bebeu tanto que viu Deus diante de
si. Você não destruiu a si mesmo e se reconstruiu. Você não criou amores como
flores e os assistiu padecerem no jardim.
- Isso porque eu nunca tive amores para
plantar. - aquilo estava me cansando. Eu tinha rolado o cigarro para o canto da
boca, ainda intacto.
- Então a vida não lhe tratou de modo
algum. - ele recostou-se no banco, puxando o guarda-chuva para o colo.
- Acho que é por isso que quero fumar.
- Ah, é? - desdém. Desdém e interesse. E o
que incentivava mais alguém a falar do que desdém e interesse?
- A vida não me deu sementes. Nunca me
disse onde encontrar sementes. Então eu procurei. Procurei, procurei. Tente
criar um jardim, mas sem a semente certa, ele não floresceu. Tente diversos
jardins. Diversos substitutos para as sementes. Mas só encontrei cigarros. -
não consegui segurar uma risada sarcástica - Pelo menos, encontrei alguma
coisa. O que seria de mim se não tivesse encontrado nada?
- O que lhe faz pensar que todos já
encontraram as sementes?
- Bem, olhe aquele cara. - eu me apoiei no
joelho, apontando para um homem através da Avenida. Ele era alto, usava uma
camiseta polo e calças jeans, seu cabelo era raspados dos lados e ele usava
óculos espelhados. - E aquela moça. - movi meu dedo para uma mulher parada ao
lado de uma arvore, mexendo distraidamente no celular, com o cabelo caindo aos
olhos.- E ali. - apontei para outro. - E ali. - para mais outro. - E ali, ali,
ali.
O velho apenas assentiu, esperando.
- Se não tivessem encontrado, como eles poderiam
ficar... assim? Calmos? Seguindo a vida deles?
Ele riu. Sua mão soltara do guarda-chuva
pela primeira vez para repousar no meu ombro.
- Menino. Você... Você se recusa a aceitar
que não exista nenhuma semente. Você acredita nelas. Ao mesmo tempo que você
não as vê.
Bufei.
- Não existe em minha vida. Já falei. Não
encontrei nenhuma.
- Só os cigarros. - completou o velho.
- Só os cigarros. - repeti.
- Não sou jardineiro - disse ele, o que,
realmente, é irônico para alguém que estava fazendo alusões a jardinagem há
dois segundos atrás. - Mas acho que cigarros não dão belas flores.
- São as flores que eu tenho em meu
jardim.
- Então está na hora de mover a terra e
fazer um novo jardim. - o tom que ele colocara nessa frase dava a entender que
a conversa estava encerrada. Os óculos voltaram a encarar a rua movimentada.
Anui levemente. Com tantos exemplos, por
que diabos ele escolhera jardim?
- Sabe o que eu gosto sobre os jardins,
rapaz? Não importa o quão refeito ele possa ter sido, se o jardineiro for
meticuloso, ele será bonito como jamais foi.
- E como o jardineiro sabe ser meticuloso?
- me dei conta de que caíra no jogo dele.
- Aprendendo a diferenciar - sua mão se
esticou até minha boca e tirou o cigarro - as sementes. E isso dá tanto
trabalho...
- Mas como? Como ele tem certeza que achou
a semente certa, depois de escolhe-la entre as outras?
- Só depois de florescer.
Voltei-me lentamente para olhar a rua. Tantos
carros passando, tantas pessoas.
- Isso daria um belo roteiro de filme. -
sorri, observando-o pelo canto do olho. – Posso até ver. Oscar de Melhor Filme,
Melhor Diretor. “Um drama para toda a família”, diria Spielberg.
- Há! – a risada foi seca, sem grassa. Ele
tirou os óculos e finalmente vi seus olhos, azuis e opacos, que agora me
fitavam com um brilho que não reluzia neles há algum tempo: diversão. - Oscar
de Melhor Ator para mim, com certeza. - observou o velho, em tom sério. Não
consegui me segurar e explodi em risadas, que ao início eram suaves, mas foram
se intensificando, fazendo meu corpo tremer. Ele se rendeu logo de primeira,
juntando-se à mim, gargalhando.
Não tinha sido tão engraçado, ambos
sabíamos, mas ficamos ali, em meio a uma multidão, rindo de algo que nem nós tínhamos
certeza do que era. Estávamos rindo das pessoas e de seus jardins sem sementes.
Estávamos rindo de cada flor que murchara e nos entristecera com a falta de sua
cor. Estávamos rindo de cada semente estregada que reconhecemos antes de
enterra-las na terra. Estávamos rindo das nossas flores que nunca foram
plantadas, mas estavam em algum lugar, esperando o momento certo para reconstruir
nossos jardins, já tão remexidos, destruídos para então serem feitos novamente.
Poderia demorar; e
iria. Mas só saberíamos quando elas florescessem.








Que baita Cronica, ein Gi? Saudades de ler seus textos, você tem tanto talento! Obrigada por me passar o link, viu?
ResponderExcluirCurti a questão que esse texto nos traz, essa reflexão sobre as nossas escolhas e nossos jardins. As vezes eu me sinto como o garoto, em uma vida que não te dá nada. E outras vezes como o ancião, que sabe que a vida é mais e que ainda dá tempo.
Continue a postar, meu amor :)